Preparar o Cão Para a Prática de Canicross

Como qualquer atleta, animal ou humano, os nossos cães precisam de um plano de treino que os permita praticar Canicross com o mínimo risco de lesão possível.

Partindo do princípio que estamos a querer iniciar a actividade com um cão que o exercício a que tem acesso normalmente são os passeios durante o dia, e que de vez em quando corre quando se está a atirar uma bola, ou faz exercício uma vez por semana, importa salientar que esse cão necessita de inicar o seu treino pelo aumento da capacidade cardio-respiratória. Sem esta, é impossível praticar Canicross sem prejudicar o animal.

Depois da capacidade cardio-respiratória, surge a “preparação física”.

Falando um pouco (e muito por alto) sobre o sistema músculo-esquelético dos nossos amigos de 4 patas, existem mecanismos que mantém a integridade articular (ausência de lesões) os mecanismos de estabilidade mecânica e de estabilidade funcional. O que quer isto dizer? Vamos por partes:

A Estabilidade Mecânica é determinada pela “forma” articular e pelas propriedades mecânicas dos tecidos que se encontram dentro e à volta da articulação (Alencar et al., 2006), tecidos estes que são responsáveis por “manter a articulação no seu lugar”, sem gastos energéticos (ex: ligamentos, cápsula articular, etc.) A “forma” articular é determinada pelas estruturas ósseas e por estruturas acessórias como discos, meniscos que, através do aumento da congruência articular, contribuem para a estabilidade mecânica.

A Estabilidade Funcional, por sua vez, é a condição que permite um desempenho normal de um indivíduo durante uma atividade funcional. Este tipo de estabilidade é promovido pelos fatores de estabilidade mecânica em conjunto com a resultante de forças que actua sobre uma articulação. A interação destes fatores promove a resistência da articulação (“rigidez articular”) a deslocamentos em atividades funcionais, prevenindo lesões. Forças produzidos pelo peso corporal (gravidade), inércia e músculos, geram uma resultante de força compressiva sobre a articulação que aproxima as superfícies articulares, aumentando a congruência (An, 2002) e consequentemente a resistência da articulação a mecanismos de lesão.

A atividade muscular tem sido reportada como um fator importante no ajuste da “rigidez articular” visto que as alterações observadas nas articulações por meio da contração muscular resultam do aumento da rigidez dos músculos ativados e também da aproximação das superfícies articulares, conferindo desta forma mais resistência da articulação a deslocamentos (An, 2002).

Existem diversas teorias sobre quais são os melhores métodos de treino para evitar lesões desportivas, mas a mais recente meta-análise (nível mais alto de evidência científica) concluiu que o treino de força é a estratégia mais eficaz para evitar lesões desportivas (Lauresen et al. 2013), devido ao explicado anteriormente. Ao contrário do que anteriormente se pensava, o treino sensório-motor (ou proprioceptivo), treino que faz com que os mecanismos de defesa articular sejam activados com mais eficiência, demonstra bons resultados quando conjugado com o treino de força, e não o contrário.

Por isso, à luz dos mais recentes estudos, importa realizar primeiro treino de força para que o treino proprioceptivo, tenha bons resultados.

E agora a pergunta que realmente interessa: Como posso eu fazer um treino de força adequado?

Primeiro, consulte o seu médico veterinário e explique o que pretende fazer para que ele possa realizar todos os exames que ache necessários para considerar o cão apto para a prática de desporto.

Segundo, importa referir que TODO o treino deve ser feito de forma GRADUAL!!!! A intensidade e a duração de todo o treino deve aumentar gradualmente e de acordo com a capacidade e tolerância ao esforço dos nossos cães.

Nos humanos que praticam corrida e que apresentam alguma fragilidade a nível por exemplo, do joelho, é aconselhado que façam reforço muscular dessa articulação com o mínimo impacto possível, sendo normalmente encaminhados primeiramente para exercícios em bicicleta estática. Nos cães torna-se difícil sentá-los numa bicicleta… Normalmente, o mais adequado para fortalecer muscularmente todo o corpo dos cães é a natação.

Na natação, é por si só excluída a dispersão de forças de impacto ao solo, causando que o exercício seja maioritariamente de treino de força muscular, sem impacto, protegendo desta forma as articulações.

Tenho um cão que odeia água, e agora?

A natação não é uma condição obrigatória para quem quer condicionar fisicamente os seus cães, é apenas um (grande) complemento. Portanto, é possível condicionar fisicamente um cão sem recurso água.

É importante iniciar o treino de corrida em superfícies regulares. Pegue no seu cão e façam treinos intervalados de corrida, por exemplo na proporção de tempo em minutos de 1:2, corrida e caminhada respectivamente, e vá aumentando gradualmente o tempo de corrida e diminuindo o tempo de caminhada. Existem diversas aplicações para Android e IOS excelentes para este tipo de treino. ATENÇÃO: não é aconselhado fazer tracção em superfícies duras (calçada/alcatrão) devido ao risco de provocar lesões nas patas dos cães!

Depois de iniciado este treino, devemos então introduzir as superfícies irregulares, como é o caso dos trilhos. As superfícies irregulares são mais propensas a causar lesões (como por exemplo as típicas “entorses”) devido ao mau ajuste do corpo ao solo.

Por isso, é aconselhado que numa fase inicial do treino os cães possam brincar/correr soltos, para que possam andar ao seu ritmo e fazerem mudanças de direcção à sua vontade adaptando-se às irregularidades do piso. Isto é também um excelente aquecimento antes de cada treino de Canicross.

Depois disto, ponha a trela ao cão e façam os treinos intervalados como têm feito em pisos regulares. Aqui, pode introduzir a tracção, desde que com equipamento adequado.

Aumente gradualmente a distância e o tempo até que atinja os seus objectivos.

É importante que exista um plano bem estruturado de treino para o seu cão e para si, como para qualquer atleta. O treino não deve ser igual todos os dias de treino nem todos os dias da semana. Assim como deve existir um bom acompanhamento nutricional e períodos de sono e descanso de qualidade.

Aqui fica um exemplo de um plano desenhado especificamente para um cão de trabalho no activo, depois de feita a re-avaliação do mesmo:

Segunda Terça Quarta Quinta Sexta Sábado Domingo
Treino Força X X X X
Treino Proprioceptivo X X X
Treino Cárdio-Respiratório X X X X
Natação X X X X X X
Técnicas de Recuperação Física X X

Qualquer desconforto que o animal apresente, deve ser levado ao veterinário. Assim como qualquer dor ou desconforto que sinta, fale com um Médico Ortopedista ou com um Fisioterapeuta.

Carolina Manguinhas

Referências Bibliográficas:

  • Alencar, M. A., Rolla, A. F., & Fonseca, S. T. (2006). Estabilidade articular mecânica e funcional. Revista Brasileira de Ciência e Movimento.
  • An, K. N. (2002). Muscle force and its role in joint dynamic stability. Clinical Orthopaedics and Related Research.
  • Baltzer, W. (2012). Sporting dog injuries. Veterinary Medicine, (April).
  • Bardet, J. F. (1998). Diagnosis of shoulder instability in dogs and cats: a retrospective study. Journal of the American Animal Hospital Association.
  • Edge-hughes, L., Canine, T., & Centre, F. (2011). Soft tissue injuries of the shoulder in the canine athlete.
  • Evans, D. L. (2000). Training and Fitness in Athletic Horses. Rural Industries Research and Development Corporation Publication
  • Kimberley L. Cullen, MSc; James P. Dickey, PhD; Leah R. Bent, P. ; J. J. T. (2013). Internet-based survey of the nature and perceived causes of injury to dogs participating in agility training and competition events. Javma.
  • Lauersen, J. B., Bertelsen, D. M., & Andersen, L. B. (2014). The effectiveness of exercise interventions to prevent sports injuries: A systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. British Journal of Sports Medicine.
  • Levy, I., Hall, C., Trentacosta, N., & Percival, M. (2009). A preliminary retrospective survey of injuries occurring in dogs participating in canine agility. Veterinary and Comparative Orthopaedics and Traumatology.
  • Pfeil, D. J. F. Von, Nelson, S., Mann, S., & Wakshlag, J. J. (2015). A survey on orthopedic injuries during a marathon sled dog race.

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